JORNAL DO DIA (ARACAJU) – Edição de 18 a 20/07/2026
ENTREVISTA | ANDRÉ MOURA
Por Gilvan Manoel
Na corrida para garantir uma das duas vagas de Sergipe no Senado, o ex-deputado federal André Moura (União Brasil) intensifica suas agendas e detalha as principais bandeiras que defende. Ex-prefeito, deputado estadual e federal, quando foi líder do governo no Congresso, ex-secretário de Estado no Rio de Janeiro, o líder político aposta em sua forte capacidade de articulação para viabilizar projetos de impacto nacional e local. Confira o que pensa o pré-candidato:
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JD – Ainda como secretário de governo do Rio de Janeiro, o senhor defendia prisão perpétua para condenados por feminicídio. Pretende mesmo apresentar a proposta, caso seja eleito?
André Moura – Sem dúvida nenhuma. O papel de um senador da República não é se omitir ou se esconder atrás de burocracias, mas liderar as reformas estruturais e profundas que a sociedade civil exige. O avanço alarmante da violência contra as mulheres exige tolerância zero. Sei perfeitamente que juristas e setores tradicionais levantam o debate técnico acerca das cláusulas pétreas da Constituição de 1988, mas entendo que o Parlamento precisa ter a coragem de questionar e propor mecanismos viáveis — seja por meio de novas modulações jurídicas, seja pelo fim definitivo de qualquer progressão de regime para crimes hediondos —, garantindo que o direito à vida das vítimas seja priorizado em detrimento dos direitos do agressor. As cláusulas pétreas não podem ser um escudo para a inércia do Estado diante da violência contra as mulheres. Por isso, defendo que o Congresso tenha a coragem de discutir uma nova constituinte, capaz de modular esses dispositivos e assegurar que o direito à vida da vítima esteja, de fato, acima dos direitos do agressor.
JD – A que o senhor atribui esse aumento nos casos de feminicídio?
André Moura – Essa escalada trágica reflete a persistência de uma cultura de impunidade, alimentada por brechas na legislação penal que permitem que criminosos perigosos voltem rapidamente às ruas. Faltam eficácia e rigor punitivo, e sobram ferramentas protetivas que muitas vezes só agem no papel. É por isso que, além do endurecimento severo das penas, defendo medidas imediatas, como o monitoramento eletrônico contínuo, com o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica para réus que possuam medidas protetivas decretadas. Leis mais brandas e a certeza da impunidade são o maior combustível da reincidência.
JD – Quando o senhor foi líder do governo no Congresso Nacional, em 2017, conseguiu alavancar para Sergipe um volume de recursos muito grande. O senhor acha que, como senador, poderia repetir esse feito?
André Moura – Esse é o nosso maior diferencial prático e mensurável neste pleito: resultado comprovado. Como deputado federal, demonstramos que o municipalismo se faz abrindo portas e destravando convênios diretamente em Brasília. No Senado, agora com a maturidade executiva consolidada após essa experiência muito proveitosa no Rio de Janeiro, e o peso de presidir em Sergipe um partido de relevância nacional, temos muito mais condições não apenas de repetir – investimentos que somam mais de R$ 3 bilhões –, mas de ampliar essa captação. O teto fiscal e o novo modelo de emendas exigem trânsito político, conhecimento das engrenagens do orçamento federal e articulação agressiva. Sergipe não pode perder tempo com discursos ou polarização. O que o nosso povo precisa é de parlamentares focados na resolutividade, em dar solução para os problemas.
JD – Um dos municípios mais beneficiados com os recursos federais foi Aracaju, na época administrada por Edvaldo Nogueira (PDT), hoje também candidato a senador. O senhor guarda mágoas do ex-prefeito?
André Moura – Na política e na gestão pública, não há espaço para mágoas ou discussões de cunho pessoal. A minha atuação parlamentar sempre foi guiada por um princípio claro: o sofrimento das pessoas não tem sigla partidária e a falta de investimentos não escolhe partido político. Destinar mais de R$ 800 milhões para a nossa capital foi uma obrigação cumprida com o povo aracajuano, independentemente de quem estivesse na cadeira de prefeito. Se o gestor à época colheu ou capitalizou os louros políticos dessas obras, o eleitor sabe reconhecer quem de fato garantiu a liberação e a execução dos recursos na ponta. E no Senado farei o mesmo, agora com a atual gestão, independente de sua posição política. Sou republicano e, para mim, não existe lado A ou lado B. Meu compromisso, minha aliança e união é com cada sergipano. Vestir a camisa da verdadeira sergipanidade é isso: colocar o povo acima de qualquer disputa partidária.
JD – Nas eleições municipais de 2024, sua filha, deputada Yandra, disputou a Prefeitura de Aracaju e acabou não passando para o segundo turno. Isso pode criar dificuldades nas eleições deste ano?
André Moura – Muito pelo contrário: cada eleição tem sua história! A deputada Yandra Moura construiu uma trajetória legítima, sendo a deputada federal mais votada da história de Sergipe. A eleição de 2024 na capital demonstrou a força e o recall político de nosso agrupamento, consolidando uma base sólida de eleitores que se identificam com o modelo de trabalho e desempenho que sempre pautou a minha vida pública – e agora a dela. As eleições municipais possuem dinâmicas próprias, mas o saldo político daquela caminhada é uma musculatura expressiva e portas abertas… muitas portas abertas na Capital, e isso também se reflete na Grande Aracaju. Ou seja, os ganhos foram imensos.
JD – O governador Fábio Mitidieri (PSD) firmou acordo também com o PT que terá o senador Rogério como candidato à reeleição. Essa aliança pode criar problemas para a sua campanha?
André Moura – A engenharia política liderada pelo governador Fábio Mitidieri em favor de Sergipe baseia-se em um pacto pelo desempenho e pelo alinhamento federativo que garanta recursos estáveis para realizar um governo que tem mudado a cara do nosso estado. Entendemos que o eleitor sergipano é maduro, sabe avaliar as entregas de cada candidato e, no cenário de dois votos para o Senado, possui discernimento para escolher os nomes que garantam governabilidade ao Estado e firmeza em Brasília. Nossa pré-candidatura segue com uma identidade clara, sintonizada em ajudar a resolver as demandas do setor produtivo, da segurança pública e de nossa base tradicional: as famílias, as pessoas que mais precisam do apoio do poder público, seja na saúde, na educação ou na proteção social. Em resumo, é lutar por Sergipe e pelos sergipanos, independente se são de direita ou de esquerda.
JD – O senhor faz dobradinha com Yandra como candidatos ao Senado e à Câmara Federal. Isso não pode causar riscos?
André Moura – Nossas candidaturas são autônomas e baseadas no reconhecimento do trabalho de cada um. Yandra construiu um mandato independente e responde com sua própria força de trabalho perante o eleitorado sergipano. O União Brasil em Sergipe cresceu de forma exponencial, saltando para 27 prefeitos eleitos, o que demonstra que nosso projeto é amplo, coletivo e abriga dezenas de lideranças competitivas nas chapas proporcionais. Longe de ser um risco, a presença de quadros qualificados em Brasília garante que Sergipe atue com uma engrenagem única e integrada na defesa dos interesses do nosso estado.
JD – Caso eleito, quais serão as prioridades do mandato?
André Moura – Nosso foco principal é resolver as demandas dos municípios e entregar soluções rápidas na ponta. No campo social e da infraestrutura, nossa prioridade absoluta será garantir o financiamento para a implantação de Policlínicas Regionais de grande porte no interior de Sergipe. Precisamos descentralizar as especialidades médicas básicas — como pediatria, cardiologia e urologia — e os exames de imagem e laboratório, aproximando a saúde do cidadão e zerando as filas de deslocamento compulsório para Aracaju. Paralelamente, atuaremos de forma firme no endurecimento penal contra crimes hediondos, na prisão perpétua para feminicidas, na viabilização da jornada 5×2 atrelada à desoneração fiscal para pequenas empresas e na consolidação de Sergipe como um polo de atração de investimentos privados, especialmente pensando na geração de empregos para nossos jovens. Além disso, vou retomar a pauta da redução da maioridade penal, proposta de minha autoria que está arquivada no Senado. Trata-se de um clamor de 80% da população brasileira, e é preciso ter coerência, pois não é possível que um adolescente de 16 ou 17 anos tenha discernimento para escolher seus representantes nas urnas, mas não seja capaz de responder pelos seus atos diante da lei. Essa certeza de impunidade é justamente o que a criminalidade organizada explora, usando esses jovens para a prática de crimes graves, sabendo que eles não serão responsabilizados como adultos.
